História

Naquele domingo de 1942, o jovem de traços orientais desceu na Estação Ferroviária de Curitiba com uma pequena mala na mão. Preferiu ir direto para casa, ler um pouco, preparar-se para a segunda-feira, a mais importante da sua vida.

No dia seguinte, Kiyossi Kanayama começaria a trabalhar como advogado. Tinha nascido em Santos, 26 anos antes, filho de imigrantes japoneses.

A crise econômica mundial de 1929 fez a família mudar para Paranaguá, onde seu pai estabeleceu-se com um armazém de secos e molhados.

O jovem Kiyossi tinha a noção exata das possibilidades que a atividade familiar lhe reservava. Poucas, para seus objetivos de crescimento intelectual e profissional.

Kiyossi Kanayama Fotografia de Kiyossi Kanayama para sua formatura no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná, em 1941.
Máquina de escrever utilizada por Kiyossi Kanayama

Imaginou que poderia ajudar mais a família se fizesse o Madureza, curso que permitia a conclusão em período reduzido do então Científico. E sozinho estudou para o vestibular na Faculdade de Direito da Universidade do Paraná.

A rotina de descer a serra era obrigatória: deixava as poucas atrações que Curitiba oferecia para ver os pais, mostrar sua determinação nos estudos, ajudar no armazém.

Curitiba tinha pouco mais de 140 mil habitantes, que aos domingos se divertiam com um jogo de futebol – o Coritiba tinha sido campeão no ano anterior e iria repetir a dose na temporada, o que pouco importava ao jovem acadêmico: ele era torcedor do Água Verde.

Os curitibanos também movimentavam o prado do Guabirotuba, com suas arquibancadas bem freqüentadas, depois de almoçar em alguma churrascaria como a do Parque Cruzeiro, no Batel. Quem era abonado tinha ainda a possibilidade de arriscar, mais tarde, alguns mil réis nas mesas do Cassino Ahú.

Para um jovem disciplinado como Kiyossi era mais útil aplicar suas poucas economias em um livro, sua paixão. Agora mesmo ele soube que, em alguns dias, o professor de Direito Administrativo da Faculdade, Manoel de Oliveira Franco Sobrinho, apresentaria à apreciação acadêmica a obra Desapropriação por Utilidade Pública, que lhe poderá ser de valia.

Naquele tempo em que a guerra consumia a Europa e já impunha seus efeitos no Brasil, ele iria ter muito trabalho, cuidando de preservar os interesses das famílias de imigrantes japoneses e alemães, ameaçados de perder os bens pela truculência da ditadura Vargas.

Nos anos seguintes, perdeu a conta dos habeas corpus que impetrou em favor dos perseguidos, advogando em Curitiba, no interior do Paraná, Mato Grosso e sul de São Paulo. Os recursos eram atendidos, no Rio de Janeiro pelo então advogado Evandro Lins e Silva, encarregado de acompanhar a tramitação junto ao Supremo Tribunal Federal.

Mimeógrafo para reprodução de cópias utilizado por Kiyossi Kanayama.
Máquina de escrever portátil utilizada por Kiyossi Kanayama.

A fama de Kiyossi como advogado dedicado, estendeu-se. Em pouco tempo, formou escritório com Accioly Filho e Oswaldo Wanderley da Costa. Estavam bem localizados, na Rua XV, entre a Rua Barão do Rio Branco e a Presidente Faria.

Dali, Kiyossi só sairia para o escritório individual, em sala própria, no Edifício Lustosa, inaugurado em 1954, ao lado do endereço anterior. O prédio era inovador: trazia uma galeria de lojas, ligando a Rua XV a Marechal Deodoro, e duas torres: uma comercial, outra residencial.

A cidade crescia e o advogado precisava aumentar a renda da família. Já em 1946 havia casado com Fani Nielsen Kanayama, uma bela filha de pai descendente de dinamarquês e alemã e mãe descendente de italianos.

Assim é que, ainda nos anos 40, prestou concurso para Inspetor de Ensino, função da qual pediu exoneração tempos depois, e se candidatou a Deputado Estadual em 1952, obtendo uma suplência.

Enquanto seus filhos nasciam – Renato, Rosani, Regina e Rogério – passou a advogar para o Serviço de Proteção aos Índios, mais tarde Fundação Nacional do Índio. Virou referência, a ponto de ser um dos redatores do Estatuto do Índio, nos anos 70. Foi ainda Professor de Direito Comercial na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, deixando o cargo em 1969.

Exerceu plenamente a advocacia, porque amava o Direito: o sonho de ver todos os netos dedicados à ciência das leis, foi satisfeito pela maioria. Dos dez que somou, sete lhe fizeram a vontade.

Este brasileiro voltado ao enriquecimento intelectual, teve na literatura uma amiga de todas as horas. Foi leitor de primeira edição de Graciliano Ramos, Lígia Fagundes Telles, Oswald de Andrade, Érico Veríssimo, Mário Quintana. Era leitor assíduo de Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Vianna Moog. Sentia-se em casa ao viajar pela imaginação dos autores preferidos. Admirava o que lia na mesma proporção em que não se afastava dos princípios que defendia.

Kiyossi Kanayama faleceu em 25 de junho de 2005, deixando um legado de rigor ético, competência e amor à profissão, presentes nos herdeiros de sua carreira profissional.

Máquina de escrever mais recente utilizada por Kiyossi Kanayama.
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